A rápida dissolução da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) no início de 2025 não foi apenas uma reorganização burocrática; de acordo com um denunciante de alto nível, foi um colapso sistémico caracterizado por incompetência, conflito interno e consequências globais devastadoras.
No seu novo livro, Into the Wood Chipper, Nicholas Enrich, antigo administrador assistente interino para a saúde global, fornece um relato angustiante de como o Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) – liderado por Elon Musk – ultrapassou a agência. O que foi enquadrado como uma missão para reduzir o desperdício resultou no que Enrich descreve como a “destruição total” de um pilar vital da política externa americana.
Uma colisão de filosofias: “Mova-se rápido e quebre as coisas” versus governança
O desmantelamento da USAID foi marcado por um conflito fundamental entre dois grupos: os nomeados políticos da administração Trump, que foram encarregados de uma “retirada” controlada da agência, e a equipa DOGE, que procurou encerrar agressivamente as operações.
Embora o secretário de Estado Marco Rubio tenha emitido isenções destinadas a proteger a “assistência humanitária que salva vidas”, Enrich revela que os métodos do DOGE tornaram quase impossível seguir essas isenções. O atrito entre essas duas facções criou um ambiente caótico:
- Bloqueios sistêmicos: No início da aquisição, os funcionários perderam acesso a sistemas essenciais de e-mail e digitais, paralisando a capacidade da agência de responder a crises urgentes, como um surto de Ebola em Uganda.
- A abordagem do “Twitter”: Enrich cita um caso em que um nomeado político, frustrado com a interrupção, comentou: “Só porque isso pode funcionar no Twitter não significa que você pode fazê-lo aqui no governo.”
- Paradoxos Operacionais: Em um movimento descrito como excepcionalmente absurdo, o DOGE rescindiu o próprio contrato de gerenciamento de sistemas necessário para executar novas rescisões de contrato – efetivamente “matando o contrato para rescindir contratos”.
O custo humano da ineficiência
O impacto mais significativo do colapso da USAID não foi encontrado nas folhas de cálculo orçamentais, mas nas vidas humanas perdidas devido à interrupção da ajuda.
De acordo com estimativas da Universidade de Boston, mais de 700.000 pessoas morreram no primeiro ano após os cortes de financiamento. Enrich destaca várias falhas críticas que contribuíram para esse número:
- Interrupção do controle de doenças: Ao congelar os programas contra a malária pouco antes da estação chuvosa, a agência perdeu a capacidade de distribuir mosquiteiros e realizar pulverização interna, um revés do qual poderia levar anos para se recuperar.
- Confusão contratual: Mesmo quando as isenções permitiam a retomada do trabalho (como programas de tuberculose), as organizações parceiras frequentemente recebiam sinais contraditórios – sendo instruídas a reiniciar o trabalho apenas para receber uma carta não assinada rescindindo seu contrato momentos depois.
- Privação de recursos: No Sudão do Sul, a rescisão repentina de um contrato de água potável deixou o pessoal americano na missão forçado a racionar água potável.
Além da saúde: riscos para a democracia e os direitos humanos
As consequências estenderam-se muito além da ajuda médica. A retirada repentina do apoio dos EUA criou um “vácuo de protecção” para os parceiros locais que trabalham em questões sensíveis como a democracia, a liberdade de imprensa e os direitos das mulheres.
Em regiões com regimes repressivos – como o Irão ou partes da Europa Oriental – a rescisão abrupta de contratos deixou os activistas locais extremamente expostos a retaliações. Enrich observa que, para grupos que trabalham nos direitos LGBTQ+ em ambientes hostis, a súbita perda de apoio dos EUA foi muitas vezes mais perigosa do que nunca ter feito parceria com os EUA, uma vez que os deixou apanhados desprevenidos sem qualquer período de transição.
Desinformação e lacuna narrativa
A aquisição também foi alimentada por uma lacuna significativa no entendimento. Enrich sugere que a equipe DOGE operou em grande parte com base em equívocos e informações não verificadas. Ele observa que, embora o DOGE tenha promovido narrativas sobre a natureza do trabalho da USAID (tais como alegações sobre o envio de ajuda para Gaza), os especialistas internos foram muitas vezes impedidos de corrigir o registo por representantes políticos que temiam que a transparência pudesse atrasar o processo de encerramento.
“Não é apenas que estas pessoas ignorassem a saúde global e o desenvolvimento internacional, elas simplesmente não sabiam como funciona o governo”, diz Enrich.
Conclusão
O desmantelamento da USAID serve como um estudo de caso sobre os perigos da aplicação de uma lógica “disruptiva” do sector tecnológico a sistemas humanitários globais complexos. O resultado foi uma quebra na continuidade operacional que levou a perdas massivas de vidas e deixou populações vulneráveis em todo o mundo perigosamente expostas.






















